Diante de uma porção de evidências, a medicina reconhece que a espiritualidade ajuda a vencer e a prevenir doenças, acelera mesmo a recuperação e dá forças para viver mais e melhor. Não é milagre! E a ciência já começa a explicar
Você está no consultório do cardiologista. Ele já perguntou sobre o seu estilo de vida e antecedentes de infarto na família, aferiu a pressão, auscultou o peito, deu uma olhada no resultado dos exames. Parece que a investigação acabou e ele fará, enfim, as recomendações. Mas uma última questão vem à tona: "Você se considera espiritualizado ou religioso?" De acordo com a resposta, o médico vai investir alguns minutos para entender o papel da fé na sua vida.
Essa anamnese espiritual, por assim dizer, ganha cada vez mais espaço na prática clínica, não importa a especialidade. Também vem sendo incorporada a prontos-socorros, salas de cirurgia, UTIs... E há uma justificativa bastante pragmática para isso: já não faltam estudos demonstrando que a crença em algo transcendente - Deus ou um poder superior - interfere de forma positiva na capacidade de o corpo humano enfrentar doenças (ou até escapar delas).
"A medicina e a espiritualidade foram separadas no século passado, mas, nos últimos anos, a própria ciência está tratando de reuni-las", contextualiza o psicólogo Esdras Vasconcellos, professor da Universidade de SP. Há evidências de que pessoas espiritualizadas são mais longevas, têm menos distúrbios psicológicos, sofrem menos infecções e... estão menos sujeitas a ataques cardíacos. Motivo suficiente para a Sociedade Brasileira de Cardiologia criar seu Grupo de Estudes em Espiritualidade e Medicina Cardiovascular (GEMCA). "Já não temos dúvidas de que a fé contribui para a saúde. Queremos entender melhor agora até onde vão seus efeitos e de que forma ela os propicia", diz o cardiologista Mário Borba, diretor científico do projeto.
Ser espiritualizado não significa necessariamente seguir uma religião. É, antes de mais nada, acreditar em alguma coisa intangível e que pode até estar dentro de você - como a esperança de que, fazendo o bem, a gente é naturalmente recompensado.
Nessa perspectiva, uma novíssima revisão de trabalhos científicos joga luz sobre o impacto de ter uma crença ou adotar hábitos religiosos sobre o sistema cardiovascular.
Com base em mais de 3200 estudos, o cardiologista Fernando Lucchese, da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, e o professor de psiquiatria e ciências comportamentais Harold Koenig, da Universidade Duke, nos EUA, analisaram o assunto sob a ótica dos fatores de risco e de mecanismos fisiológicos envolvidos no infarto.
"Há uma relação direta entre espiritualidade e melhores índices de atividade física, alimentação equilibrada, tabagismo e consumo de bebidas alcoólicas", conta Lucchese. Uma vida espiritualizada parece servir como um propulsor de bons hábitos. segundo o artigo, pessoas religiosas ou que procuram autoconhecimento e força em algo maior estão menos expostas a praticamente todas as condições que ameaçam o peito, como colesterol alto, hipertensão e sedentarismo.
"Os indivíduos que buscam o transcendente também estão protegidos diante do estresse e da depressão, importantes fatores de risco cardíaco", reforça o cardiologista Ney Carter do Carmo Borges, da Universidade Estadual de Campinas, no interior paulista.
Da lista negra contemplada pela revisão, só houve uma exceção: a obesidade.
Mas por que diabos pessoas de fé tendem a engordar? "Diversas religiões estimulam o convívio social em torno de banquetes calóricos e veem a gula de modo mais condescendente", especula Koenig, considerado um dos papas em matéria de medicina e espiritualidade. Ora, a fé é uma das peças que compõe uma rotina saudável - mas não adianta rezar toda noite e viver entregue ao sofá e à comilança. Esses são pecados que o coração não perdoa.
Espiritualidade X religiosidade - Esses termos não são sinônimos e ainda há muito debate sobre suas definições. "A espiritualidade é a busca pessoal para entender questões como o sentido da vida e as relações com o sagrado e o transcendente. E isso pode ou não depender de práticas religiosas", diz Sissy Fontes, Expert em espiritualidade e medicina da Unifesp. Já a religiosidade leva em conta seguir uma doutrina e a frequência com que se reza e se participa de eventos e rituais - em templos ou mesmo em casa.
Questões paradoxais à parte, ganham força os indícios do papel positivo da espiritualidade frente à hipertensão. "Um trabalho feito nos EUA apontou que comunidades mais religiosas apresentavam índices de pressão arterial 20% mais baixos em comparação a grupos predominantemente céticos", exemplifica Lucchese. Em um estudo recente do Programa de Pós- Graduação em Ciências das Religiões da Universidade Federal da Paraíba com 139 hipertensos, a intensificação da prática religiosa em uma parte dos voluntários atenuou sintomas ligados ao aperto nos vasos, como tonturas, taquicardia e dor no peito. "Embora todos tenham continuado hipertensos, os pacientes mais religiosos evoluíram melhor ao aumentar a frequência a templos e igrejas em relação àqueles que faziam isso uma vez por semana ou menos". relata a patologista Berta Lúcia Pinheiro Klüppel, orientadora da pesquisa.
Ok, a medicina aprecia evidências, mas não se contenta até descobrir o "como" e o "porquê". Na revisão assinada por Lucchese e Koenig, os experts discutem os principais efeitos fisiológicos da fé sobre as artérias. "A espiritualidade atua na interação entre o sistema nervoso, endócrino e imunológico. Ela está associada, por exemplo, a níveis mais baixos de substâncias inflamatórias, envolvidas no processo que leva ao infarto", esclarece Lucchese. Funciona como uma reação em cadeia: devidamente equilibrado, o cérebro diminuiria a emissão de sinais por meio de hormônios que, em última instância, resultam em vasos contraídos e inflamados.
Esses mecanismos ajuda a explicar os achados de experimentos relacionando espiritualidade a uma menor taxa de mortalidade por doenças cardiovasculares. Caso clássico é um estudo israelense concluído na década de 1980 que, após acompanhar 10 mil homens de meia-idade por 23 anos, constatou que o risco de perder a vida por causa de um ataque cardíaco era 20% menor entre os mais dedicados a compromissos religiosos, Outros levantamentos vão no mesmo caminho, mostrando que a participação em cultos e missas está diretamente associada a uma maior expectativa de vida cardíaca.
Da mesma forma, uma rotina espiritualizada não só previne panes no peito como também acelera a recuperação de quem passou por um sufoco desses. Lucchese e Koenig destacam um estudo do Centro Médico Dartmouth, nos EUA, que mesmo controlando variáveis como idade e histórico prévio de piripaques, desvendou o seguindo: - indivíduos que costumavam obter conforto obter conforto na religião morriam menos depois de cirurgias cardíacas. Nessa linha, trabalhos atestam que a recuperação pós-operatória também é mais rápida em quem professa uma fé.
FÉ, VIGILÂNCIA E PREVENÇÃO
Um dos pilares para vencer o câncer é o diagnóstico precoce, e a religiosidade dá um empurrão na hora de se submeter a exames de rastreamento. Isso foi confirmado em um estudo populacional envolvendo 37211 mulheres na Irlanda do Norte.
Aquelas crescidas em ambiente cristão ou sectárias de um igreja realizavam mais mamografias e, portanto, se precaviam melhor contra o câncer de mama. O biomédico e autor do mapeamento Dermot O'Reilly, da Queen's University Belfast, arrisca duas hipóteses para justificar o achado: "As pessoas religiosas costumam ter casamentos bem-sucedidos, em que um parceiro incentiva o outro a procurar sistema de saúde. E, como geralmente são mais conservadoras, acabam seguindo boa parte dos conjuntos de regras e recomendações, inclusive as médicas". O professor Escras Vasconcellos completa: "Tendo espiritualidade , o indivíduo percebe que cuidar da alma implica também cuidar do corpo".
QUANDO A FÉ VEM DO OUTRO
Um tema que ainda intriga os pesquisadores é se (e quando) funcionam as orações a distância - isto é, se a reza ou os pensamentos positivos de parentes ou até desconhecidos ajudariam alguém a convalescer de um problema. "Um estudo com infartados recém-chegado à UTI demonstrou que indivíduos contemplados nas preces de um grupo tinham menos complicações. Mas não se viu diferença na taxa de mortalidade", conta Fernando Lucchese. Já uma revisão do Instituto Cochrane em cima de dez estudos envolvendo quase 8 mil pessoas concluiu que receber orações não trata benefícios significativos frente a quaisquer doenças, nem efeitos adversos. Apesar de render controvérsias, há quem aposte que a prática funciona - a despeito de quão longe estão o emissor e o receptor. "Seria uma interferência positiva, mas o paciente precisa estar aberto (sintonizado) a receber essa ajuda e ele mesmo desenvolver sua fé", analisa Sissy Fontes. Mas como explicar o efeito dessa prece a distância? Por enquanto, as fichas recaem sobre a física quântica.
O LADO NEGRO DA FORÇA
A religiosidade, por outro lado, pode, sim atrapalhar o estado de saúde e a recuperação em uma doença. Isso acontece, em geral, por três razões.
- Encarar os problemas apenas como castigos divinos, o que abala a expectativa de melhora.
- Algumas religiões têm regras mais duras, capazes de gerar estresse. Não à toa, doutrinas punitivas ou fanáticas já estão associadas a um aumento de pressão arterial.
- ter uma atitude passiva e latar tudo nas mãos de um ser superior, negligenciando inclusive as prescrições médicas.
"Espiritualidade e tratamento convencional devem sempre andar juntos"
Fonte: Revista Saúde é Vital (dezembro/2013) - por Diogo Sponchiato, Thaís Manarini e Theo Ruprecht


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