Uma criança pequena que tenha um irmão mais velho que a trate de modo muito carinhoso, ensinando-lhe as coisas com inesgotável paciência e sempre com um sorriso no rosto, demonstrando ter por ela um profundo amor fraternal, chamará esse irmão, também, de forma carinhosa e olhará para ele com equivalente carinho. Assim, se seu irmão se chamar Pedro, por exemplo, o chamará de Pedro ou Pedrinho, não importa se este já for um profissional bem sucedido, um magistrado, um doutor ou um político de destaque. Para ele, seu irmão mais velho será sempre íntimo não havendo motivo algum para tratá-lo por títulos ou designações honorificas quaisquer. O querido leitor imagina essa criança pequena, que tem um relacionamento tão amoroso com seu irmão mais velho, chamá-lo de “Magistrado”, “Doutor”, “Excelência” ou coisa que o valha? Pensamos que não.
No entanto, a despeito desse entendimento tão simples, é comum chamarmos a nosso querido irmão mais velho, que nos ama profundamente e tem uma paciência ilimitada com nossos erros e imperfeições, por um título honorífico. Porque será? Esse nosso irmão querido sempre demonstrou extrema simplicidade. Nasceu numa pousada no local de descanso dos animais, conversou e comeu com as pessoas mais desprezadas da sociedade, sentou-se no chão com aqueles a quem ensinava, lavou os pés de seus alunos, jamais demonstrou a menor vaidade, sua imensa grandeza sendo de ordem puramente moral.
O nome pelo qual foi conhecido nosso querido irmão mais velho quando esteve encarnado entre nós foi “Jesus”. O nome Jesus é o equivalente em português do latim “Iesus”, que é proveniente do grego “Iesous”, uma transliteração do aramaico “Joshua”, que significa “Jeová é salvação”. Era um nome próprio utilizado na região da Palestina naquela época. No evangelho segundo Lucas (1:31), informa-se que Jesus foi o nome que um “anjo” disse a Maria que seu filho deveria ter, ao anunciar sua sublime missão. Já no evangelho segundo Mateus (1:21), lê-se que um “anjo” contou a José, em sonho, sobre o filho que Maria tinha em seu ventre, dizendo que seu nome seria Jesus. Tenha sido de uma forma ou de outra, o certo é que o nome que José e Maria deram a seu filhinho querido foi Jesus.
Na época em que Jesus veio ao mundo e até mesmo no início da idade moderna, não havia uma sistemática de sobrenomes para designar as pessoas. Desse modo, para que cada um fosse identificado de forma inequívoca, era hábito associar-se ao seu prenome designativos diversos, que podiam ser de filiação (“Tiago, filho de Zebedeu”), origem (“José de Arimatéia”), aparência física especial (“Timur, o coxo”), profissão (“José, o Carpinteiro”) ou outros mais. Assim, sabe-se pelos evangelhos que Jesus foi chamado no tempo em que esteve encarnado entre nós de “Jesus Nazareno” ou “Jesus de Nazaré”, numa referência à região de onde se acreditava que ele provinha.
Com relação ao termo “Cristo”, pelo qual Jesus é constantemente chamado, este não é um nome próprio e sim um título. A palavra “Cristo” vem do latim “Christus”, que provém de “Christos”, o equivalente grego do aramaico “Messiah”, que significa “O Ungido”. A cerimônia de unção com óleo pode ser encontrada no Antigo Testamento em mais de uma oportunidade, sendo associada a uma iniciação, à descida do espírito de Jeovah sobre o ungido, preparando-o para uma nova missão.
Quando Jesus iniciou entre nós sua nobilíssima missão, alguns judeus pensaram que ele era o ungido que havia vindo para libertar o povo Judeu do domínio romano. Após seu suplício na cruz, seus seguidores mantiveram a idéia, adaptando-a para uma libertação espiritual. Desse modo, quando os evangelhos foram escritos, décadas após a desencarnação de Jesus, várias referências ao Mestre como o “Messias”, o “Cristo”, foram introduzidas, mesmo que, em vida, ele não tenha sido chamado assim, mas, simplesmente, de “Jesus Nazareno” ou “Jesus de Nazaré”.
Ora, à luz da Doutrina Espírita, sabemos que o Espírito Jesus nasceu simples e ignorante como todos nós, tendo chegado à elevada condição em que hoje se encontra através de seus próprios esforços, fazendo o melhor uso de seu livre arbítrio, sem ter sido, portanto, ungido ou iniciado por ninguém para desempenhar sua missão entre nós. Lembramos ainda que, à luz do entendimento espírita, Deus não é um ser, uma criatura, mas “a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas”. Logo, para os espíritas, Deus não pode ungir a ninguém, pelo menos não no sentido literal do termo. Um Espírito Puro sabe qual é sua missão onde quer que esteja, não dependendo de guias ou mentores para lho dizer. Logo, pela etimologia do termo, não seria justo com Jesus chamá-lo de Cristo. No entanto, a equivalência entre os designativos Jesus e Cristo foi forçada durante tantos séculos pela Igreja Católica e, depois, pela Evangélica, com o intuito de despersonificá-lo, dando a ele natureza divina, que se perdeu o significado original do que era apenas um título, passando o termo Cristo a ser usado como outro nome de Jesus ou, ainda, como seu sobrenome.
Assim, se pela etimologia é incorreto, pelo uso é hoje perfeitamente natural usar-se “Cristo” e “Jesus” como se fossem sinônimos. Diversos Espíritos que se comunicaram na Codificação e outros que se comunicaram posteriormente, trazendo mensagens da mais alta moral, vinham de existências no seio da Igreja Católica, razão pela qual, segundo cremos, mantiveram a tradicional equivalência entre os nomes Cristo e Jesus ao se referirem ao nosso Guia e Modelo. Esse uso, no entanto, apesar de parecer nada ter de mal, tem a nosso ver um inconveniente. Temos escutado oradores espíritas se referirem a “O Cristo” ou a “O Cristo de Deus” com uma ênfase por demais respeitosa, em uma postura que parece colocar Jesus de volta no altar da divindade no qual, em passado, não tão distante, nossa ignorância o colocou e do qual a Doutrina dos Espíritos o retirou para colocá-lo junto de nós, onde ele sempre quis estar pela sua vontade.
Deus, a “inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas” é incognoscível para nós, faltando-nos entendimento para compreender a Sua natureza. Tratamos Deus colocando iniciais maiúsculas nos pronomes que a Ele se referem devido à incomensurável distância que nosso tímido estágio evolutivo nos coloca da Sua compreensão. Mas com Jesus é diferente. Ele é um Espírito como nós, um irmão mais velho que nos ama profundamente e que nos prometeu que onde quer que nos encontrássemos em seu nome, isto é, para fazer o que ele nos ensinou, ele estaria junto de nós. Entendemos, assim, que para sentirmos Jesus mais próximo de nós, deveríamos nos habituar a chamá-lo, preferencialmente, pelo nome pelo qual foi conhecido quando encarnou em nosso mundo, sempre humilde e com um amor infinito por nós.
Jesus, querido irmão mais velho, queremos sentir você bem juntinho do nosso coração. Que sejamos capazes de tal a despeito de nossas fraquezas e más inclinações, pois, se nos sabemos ainda crianças pequenas e ignorantes, igualmente sabemos o quanto você nos ama e o quanto tem feito por nós.
Bibliografia
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 74.ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995
Origin of the Name of Jesus Christ. Em Catholic Encyclopedia. Obtido, em 13/02/2006, de http://www.newadvent.org/cathen/08374x.htm
The Difference between Jesus and Christ. Em Bible Time. Obtido, em 13/02/2006, de http://www.bibletime.com/home/faq/jesuschrist/index.html
Artigo originalmente publicado na revista Tribuna Espírita, Ano XXVI, nº 143, Maio/Junho 2008

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